sábado, 10 de setembro de 2011

Parênteses, gramática e word


    Adoro os parênteses. Há sempre algo dentro de algo dentro de algo dentro de algo... Um dia um colega de faculdade me disse que era isso um conjunto vazio (não seria infinitamente cheio amigo Pedro?). A infinita possibilidade de ter coisas dentro das coisas. Parece que uma teoria filosófica (do meu colega ou não. Provavelmente uma cópia, que não deixa de ser criação) explica bem isso. Mas pra que teorias filosóficas? Mais simples entender que nada é aquilo que se propõe a ser somente. Toda fala esconde um silêncio (ou uma fala contida). Todo desenho esconde um traço não riscado (ou uma borracha mal utilizada). Toda bronca de pai esconde um carinho mal interpretado (ou mal praticado). 
   Dessa adoração surgiu uma constante. Vejo parênteses nas coisas. Tipo como quem vê rostos nas coisas (ou musicas no dia-a-dia) (ou carinhas nas letras... geralmente são as vogais que fazem as caretas... consoantes costumam ser mais fechadas pra brincadeiras... tipo a pronúncia alemã e toda sua seriedade). Quando alguém me diz sim as vezes surge um (NÃO) em cima de sua cabeça. Em forma de ‘quadrinhos’ sabe? Aquelas nuvenzinhas pra simbolizar pensamentos. Acontece quase sempre. Também comigo. Ao conversar me dar vontade de abrir parênteses. São tão necessários como as vírgulas (que não servem só para respirar), ou os acentos agudos (símbolos do exagero das sílabas que não são importantes por si só). 
    As conversas dessa geração estão cada vez mais sem parênteses. Cada vez mais na pegada do MSN, sabe como é? Sem feições nem gestos. Palavras por si só não conseguem chegar onde querem. Os textos de Machado de Assis tinham rostos (não necessariamente nas vogais) de angustia, maldade, amor. Como não ler a agonia (ou paixão) de Bentinho ao falar dos olhos da amada? (“Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que... Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.”).
    Tão importantes (ou mais) que a noção gramatical que possuem, os parênteses, acentos, hífens e pontuações são pedaços de rostos que juntos formam o sentido da palavra. Nunca me dei bem com a gramática por não ver tanta importância em colocar (ou não) uma cedilha ou acento pra ficar (ou não) igual outra palavra com outro sentido. É preciso conhecer todo o aparato vocabulário da língua para não correr o risco de estar errado (mesmo que certo na vontade expressada) ao colocar ou não um acento ou letra no lugar que não é o dito devido. Mas de que vale escrever tudo ‘certo’ e não ser entendido? Por isso quase sempre desisto de escrever o que estou a pensar. É difícil passar pro papel o pensamento enquanto tem um senhor ‘formalismo’ conversando no pé do seu ouvido. Diabo em pé no ombro direito dizendo ‘esse a ai tem crase, e não se coloca acento depois de verbo’ (como se um verbo não pudesse ser separado do predicado. Conheço vários predicados que odeiam seus verbos. ‘Ele traiu a mulher que o amava’. Que mulher amante gosta do verbo ‘ser traída’?) (O que sabe a gramática da vida? As regras do livro não valem aqui fora do papel) enquanto o anjo tenta continuar a sussurrar o pensamento que eu já nem me lembro mais qual era com tanta regra pra pensar (nem pensar no coloquial eu posso mais). 

Às vezes nunca sei se "as vezes" leva crase. Às vezes nunca sei em que ponto acaba a frase!. (Ás vezes nunca - Humberto Gessinger)

    Detalhe... Abaixo do primeiro “as vezes” do Humberto o Word (escrevi o texto no computador, o que é uma lástima por que o papel não fica nos corrigindo toda hora julgando saber o que temos ou devemos ter como certo no texto que é nosso) avisa (em sublinhamento verde. Porque quando é vermelho quer dizer PARE. Geralmente quando a palavra ‘não existe’... Mas se eu escrevi como pode ela não existir?) que ‘Neste caso deve-se usar a crase’.
    Irônico não? Tão irônico quanto os dois pontos (final e de exclamação) do final da frase. É preciso escolher.. não se pode exclamar e finalizar ao mesmo tempo. Um ataque a soberania gramatical.
    Será que você conseguiu ver no meu texto a minha cara de angústia? Duvido que sim. É porque o Word ‘corrige’ minhas palavras automaticamente. Saudade dos tempos de papel e caneta.

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